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Crônica de um diário inconstante – Ep.07 – “Palheta de Cores”

14/04/2016

Crescer muda muitas coisas na vida. … complicado ver tantas inocências se desfazerem, tantas cores desbotarem. O sorriso era mais fácil, o mundo cabia na palma da mão, e tudo era uma diversão. Éramos mais livres em nossas atitudes e pensamentos, nascemos extremamente sinceros. Meu mundo sempre foi completo nem que passasse o dia entre a janela e a porta do quarto. Bastava-me. Pois não sei bem quando vieram me mostrar tudo que me faltava, tudo que ainda não tinha. Que direito tinham de fazer em meu universo um lugar para tanta ausência? Não me adiantava mais passar a chave, a vida lá de fora já havia invadido meu interior, e assim o colorido foi ficando preto e branco. Pelos dias, o que acreditava para este espaço meu na existência foi desmoronando entre cicatrizes e decepções. Há quem persista, há quem desista, há quem vá com a maré. E todos tem suas raízes. Fiquei em algum meio termo, sendo incapaz de manter algumas idealizações, e com tantas outras que guardei para mim.

Recentemente, percebi em um amigo amores e alegrias das quais não imaginava mais ser possível, coisas de um passado distante. Ainda mais breve na história outro companheiro se viu “re-educando-se” ao romantismo que seu passado tinha o feito abandonar. Eu mesmo, depois de doer em mim e no próximo, vagando pela condição da minha solidão real, encontrei a felicidade que parece ter nascido comigo. Talvez crescer seja uma travessia, e o quadro preto e branco, a chance de pintá-lo como quiser.

Crônica de um diário inconstante – Ep.06 – “Muro Branco”

07/04/2016

Crônica 6
A “pixação” não é considerada nada além de sujeira, e para todos basta que encontrem um jeito de se livrar disto, nem que a solução seja multar quem não o faz. Mas há algo maior escondido por trás desta apropriação da cidade por um código pessoal e indecifrável. Por que ir até o alto dos prédios, por que arriscar sua própria vida para “sujar” uma fachada? Ele não faz por dinheiro, ele não faz por prestígio, ele não faz simplesmente para aparecer para o mundo. Em algo essa pessoa tem que acreditar para subir 20 andares e se equilibrar de ponta cabeça. A apropriação daquilo que lhe é negado diariamente pelo nosso sistema social, através de uma expressão particular e enigmática ao olhar da sociedade, é uma forma de questionar este universo de cartas marcadas, este horizonte que insistimos em construir na nossa janela, mas que não existe. O mundo é mais cru. Há um grupo gritando por algum tipo de atenção, cuidados, de valorização, que vive à beira, que assiste a barbárie, que se incomoda o bastante para querer resignificar o espaço, para questionar a autoridade, para lutar pelo que acredita. Basta um deslize fora dos padrões de comportamento gerais que excluímos pessoas como se nada do que acontecesse fosse consequência também de nós. Nos transformamos assim como em um passe de mágica, em apenas indivíduos.… assim que seguimos a nos abandonar. Na falta de alguma consciência que pense, e sem saber a quem ou como recorrer, apelamos para aquilo que não é do humano, o divino.

Crônica de um diário inconstante – Ep.04 – “Obsoleto”

24/03/2016

Crônica 4_Cuidado veiculos

 

É preciso estar atento a nova ordem mundial. A máquina precisa de nossa atenção, de todo nosso cuidado. Dane-se a saúde e liguemos os ares condicionados. Sim, pois até o ar é condicionado pela máquina, o que ela não pode fazer pela gente? Ela leva, ela transmite, ela carrega, ela multiplica. Nós pobres humanos sentimos, dizemos pensar. Pouco, perto das multifuncionais. Eu tenho faixa onde posso cruzar, o carro pode ir em qualquer lugar. Eu mal me ajeito na cadeira, mas o laptop tem espaço sob medida. Para falar a verdade esta carcaça está mesmo ultrapassada. Cheia de dores, acumula uma lista de doenças, nem a mente funciona mais. Não precisa ter quilometragem, hoje em dia todo humano tem problema, desde sempre. Não tem TI suficiente para atender tanta necessidade, muito menos peça de reposição. São psicólogos, terapeutas, otorrinos, ortopedistas e pediatras, afinal parece que já nascemos com defeito. Talvez a placa esteja certa, nós que temos que estar atentos, há tanto que pode ocupar nosso lugar. Foi ao me comunicar pela máquina, sentindo sem ver, imaginando a fala, fazendo expressões para o vazio, foi que medi toda nossa impotência perante ela. Tornou-me obsoleto ao fazer do meu abraço uma mera ilusão. Cada dia somos mais máquinas, veículos evitando contato.

Crônica de um diário inconstante – Ep.03 – “Forjar”

17/03/2016

Espaço. Ele é construído de limites muito duvidáveis já que qualquer um pode vir e num dia qualquer ver um pouco mais além daquilo que você determinou como fim. Nós preenchemos o espaço, aliás, mais que isso. Nossos desejos, nossas essências, nossa vida preenchem. O lugar é algo cheio de significados pessoais, e só se torna lugar porque tem sentido. Todos nós sabemos onde depositamos o que somos. Os lugares que decidimos, que percebemos pertencer.

Pois bem, como se esvazia um lugar? Como se rouba todo um sentido? Você impõe regras, controla seu acesso, segrega seus componentes, tira seu conforto, transforma tudo em paisagem. No passar dos anos, lentamente, diante todos os olhares aquilo que era de cada um torna-se de poucos. Não tem mais praças, bancos ou traves para o futebol. Tudo ganhou nome e função. O lugar que era encontro se tornou passagem. Uma cidade fantasma habitada por alguns que ocupam seu espaço sem propósito, outros que tentam resignificar seu objetivo. Abandonado por aqueles que a cultuam, e um estorvo para aqueles que a dirigem. Como podemos chamar de público um lugar que ignora a vida? Um espaço transitório e efêmero como tudo que nos vendem nessa modernidade. Algo sem sentido, com função e sem alma. … assim que se forja uma imagem, baseado no vazio. Esse espaço é um símbolo da nossa decadência, da nossa falta de rumo, que não rediscute, que não propõe, que é mais uma peça na engrenagem, que também excluí. Não se engane, o pensamento e o humano também são descartáveis.

Crônica de um diário inconstante – Ep. 02 – “Meu velho gosto favorito”

10/03/2016

O humano dentro da gente é muito simples, primitivo, visceral até. Ele reage a tudo, ao menos ao que pode sentir. Toda palavra é palavra, mas algumas são amargas. Todo mundo um dia vai embora, mas temos a certeza de quem não volta. Tudo se resume em algum instinto que te revira o estômago. Pois o que dizer daquele delicioso cheiro de pastel de feira? Estava em um local considerado um dos pontos mais caros da cidade. Tinha praças de alimentação ao meu alcance, tinha planos para um belo “cheese burguer” em uma alameda próxima, mas um pastel de feira me conquistou. Veio acompanhado de uma cana caudalosa, um calor íntimo, um sabor de nostalgia. Como é bom saborear passados, parece que jamais vão inventar algo melhor. Sem dúvida que já não me lembrava a última vez, mas agora nada importava diante um farto recheio de palmito. Até as pontinhas só de massa fazem a diferença e completaram meu humano de formas que não sabia que precisava. O mundo pode ser cheio de novos sabores, mas há os insubstituíveis. Regressei ao meu sorriso mais infantil, aqueles que eram de plena alegria, lembram? Satisfeito, não me incomodo de ser primitivo e ceder a um cheiro, me deixar levar por algum olhar.

03/03/2016

Janela cozinha_chuva

Crônica de um diário inconstante – Ep 01 – “Eu comprei uma primavera”

Os casacos insistem em permanecer no repertório. O sol brinca de verão e a chuva quer atrasar a estação. Já não sei como arrumar a cama. Juro que a primavera chegou, vi de suas cores pelas ruas, avançando pelas paredes, crescendo em gramados nos jardins. Mas basta fechar a janela para acordar em algum outono desavisado, sem respeitar nossos botões prontos para abrir. Gostaríamos de deixar o armário em casa e segurar o cabelo dela com a rosa roubada do vizinho. E cá estamos a abrir nossos guarda-chuvas, inventando alguma outra moda, desistindo de nossos romances. Entregaram a estação errada e não tem como ligar para o PROCON, quem dera pudessem nos ressarcir com uma caixa de primaveras. Mais um dia escorre pelo vidro.

Crimes do passado nas mãos de novos criminosos

08/05/2012

Olhar para o passado não é crime.

Lembremos dos Holocaustos do século XX, Vietnã, Massacres, Ditaduras; mais atrás, Absolutismos, Tráfico de escravos, Inquisição.
Olho os jornais e vejo manifestantes pró-democracia sendo espancados. Partidos religiosos tomando cargos no governo. Igrejas monoteístas fanáticas reprimindo a votação de leis democráticas. Frentes nazistas se erguendo na Europa e todo tipo de velhos pesadelos irradiam suas reações. Grécia, França, Alemanha, Espanha, Itália. Aos Estados Unidos da América interessam os migrantes endinheirados. O Cartão de Crédito é o novo Green Card. Mas cubanos, não passarão. Refugiados de regimes totalitários, não passarão. Veremos por todo século XXI massacres que começarão com alegações sobre a crise financeira e novos planos de austeridade fiscal trarão a fome e a guerra civil. Países caracterizados por seu isolamento cultural serão atacados – novos Iraques, Vietnãs, Japães? Países como o Brasil não demorarão a fechar suas fronteiras – para alguns povos, um país que ainda não entrou em plena decadência é melhor que um de economia morta. Recebemos Haitianos, Bolivianos, Venezuelanos. Já começamos a receber em maior número Coreanos, Norte-Americanos e Europeus. E virão mais. É o rodízio capitalista. Antes, fomos o país da oportunidade, décadas depois nós é que desejávamos ir a outros países em busca de salário. Agora, com a imagem que vendemos, estão comprando nossas reservas trabalhistas. Depois chegará definitivamente a crise aqui – que o presidente ou presidenta de então nos dirá que é uma nova e inesperada crise – quando os mercados mundiais não comprarem nossa matéria-prima, nosso suco de laranja, nossa carne bovina.

Estamos distraídos. Resignados.

As redes sociais são o novo sonífero do povo. Escrevemos, lemos, opinamos, fazemos “pressão” – principalmente sobre o sofá da própria casa. Mas para as coisas mudarem de fato, teremos que passar por muita dor. Quem propõe derrubar o regime socioeconômico vigente não faz ideia do passo-a-passo para estabelecer uma nova agenda para as nações.

A crise chegou a alguns fornecedores do varejo e empresas de serviços. Mas ninguém ouviu seus pés-de-pombo. Empregos estão sendo cortados, grandes instituições falam internamente em cortes de 50% dos funcionários e só saberemos oficialmente disso daqui a um ano quando houverem estatísticas permitidas, ou inevitáveis.

E não parece estranho que o governo esteja preocupado com nosso bem-estar, baixando juros ao consumidor?
A mensagem que ouço dentro de mim,  causada pelos discursos públicos é “não parem de comprar, paguem suas dívidas e façam novas prestações”. Será a “nova classe média” a salvadora da pátria?

Pergunto-me se é um ciclo ridículo da humanidade.
Pergunto-me qual meu papel possível nisso, num mundo que não é dicotômico há mais de vinte anos.

AlfajoR